Sobre interações e desenvolvimento da linguagem – o caso do suco

Este blog anda um tanto quanto solitário nos últimos tempos. É que Maria, no auge dos seus quase dois anos (e hoje, exatamente, completou um ano e 11 meses) nos requer ainda mais atenção e interação. Isso quer dizer que o dia inteiro tagarelamos. Nos entendemos maravilhosamente bem. Do murmúrio de coisas ininteligíveis, passando pelas palavrinhas básicas e mágicas, agora Maria é a rainha da interação. Tá certo que, na frente de pessoas estranhas ou com pouca convivência com ela, se faz de tímida, mas é tudo cena. Em casa e entre os mais familiares, ela se solta. Fala o tempo inteiro, conversa como quem sabe tudo o que está ao seu redor. E tem horas que acho que sabe mesmo. Outro dia me soltou essa: “mamãe, liga televisão. Novela e jornal não. Patati Patatá”. Isso é só um aperitivo da alegria que é essa convivência. Ontem, fã de suco e de frutas que só, me pediu: “Suco de uva, mamãe”. “Não tem, filha.” “Suco de cirola”. “Também não, não tem acerola”. “Suco de goaba?” “Tem, de goiaba tem, vou fazer.” O Rafinha, primo-filho que mora com a gente, perguntou a ela: “Você gosta de suco, Maria? De qual suco gosta mais?” E ela, prontamente: “maacuá“, que não estava na lista. Hoje, mais uma de suco para fechar o dia. Ofereci água a ela, já no início da noite. Ela me respondeu: “Água não, mamãe, suco.” Como tínhamos água de coco em casa, o papai falou: “Vamos tomar água de coco então?” E ela: “de coco não. Água de uva. Água de cirola. Água de goaba…” PS: Olha só como a nossa menina cresceu!!!

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Descobrindo os sabores (ou: existe vida após as papinhas?)

No dia em que completou meio ano, Maria ganhou de presente a possibilidade de experimentar um mundo de sabores. Deixaria de ser exclusivamente mamífera e poderia começar então seu passeio pelos pomares e hortas disfarçados de papinhas. Na primeira semana, suco pela manhã e fruta à tarde. Começamos com uma maçã raspadinha. Antes da primeira colherada, vem a mãe com seus preparativos (também a mãe, e principalmente ela, perdida com tanta novidade!): senta a mocinha no carrinho, coloca o babador, parte a maçã ao meio (como se a menininha fosse comer tudo), raspa a maçã e dá a primeira colherada para ela. A reação? Uma caretinha, seguida por uma curiosidade pela colher. Quis segurá-la, colocar na boca junto com os dedos, mas a maçã mesmo ia para dentro e para fora, mais para fora que para dentro. Fez carinha boa, apesar de todo desajeito da mãe. “Então é isso que vocês adultos comem?”, o pai traduziu em palavras o pensamento da filha, depois da fotografia para registrar esse momento histórico (e que ilustra este post). O destino da meia maçã foi, inevitavelmente, o estômago da mãe. E daí em diante, virou rotina o suco pela manhã (ainda pouco apreciado por Maria) e a frutinha à tarde, momento mais de brincadeira que de alimentação, convenhamos. Na primeira semana de adaptação, quem conquistou o paladar da menina foi o mamão, até perder para a papinha salgada, introduzida na dieta na segunda semana. Na hora do almoço, uma mistura de cenoura, batata e chuchu, cozidas junto com carne e um pouco de azeite e transformados uma massa homogênea, foi devorada por ela (isso quer dizer umas duas ou três colheradas). Não sei se é o cheirinho de legumes que faço questão de fazê-la sentir ou se realmente ela tem preferência por coisas salgadas, só sei que é o que ela tem comido melhor. Estamos ainda na segunda semana, mas creio que daqui a pouco ela já estará comendo bem mais, feliz da vida e fazendo a maior bagunça como sempre. Do lado de cá, a mãe ainda está aprendendo a lidar com os horários e a dinâmica do dia, se virando e tentando descobrir se existe vida após as papinhas. Tudo fica de pernas pro ar para conseguir ajeitar essas delícias para minha menininha. Ela me retribui, com a carinha lambuzada e uma felicidade sem fim por estar crescendo e fazendo ainda mais parte do nosso mundo. Quer mais vida que isso?