Descobrindo os sabores (ou: existe vida após as papinhas?)

No dia em que completou meio ano, Maria ganhou de presente a possibilidade de experimentar um mundo de sabores. Deixaria de ser exclusivamente mamífera e poderia começar então seu passeio pelos pomares e hortas disfarçados de papinhas. Na primeira semana, suco pela manhã e fruta à tarde. Começamos com uma maçã raspadinha. Antes da primeira colherada, vem a mãe com seus preparativos (também a mãe, e principalmente ela, perdida com tanta novidade!): senta a mocinha no carrinho, coloca o babador, parte a maçã ao meio (como se a menininha fosse comer tudo), raspa a maçã e dá a primeira colherada para ela. A reação? Uma caretinha, seguida por uma curiosidade pela colher. Quis segurá-la, colocar na boca junto com os dedos, mas a maçã mesmo ia para dentro e para fora, mais para fora que para dentro. Fez carinha boa, apesar de todo desajeito da mãe. “Então é isso que vocês adultos comem?”, o pai traduziu em palavras o pensamento da filha, depois da fotografia para registrar esse momento histórico (e que ilustra este post). O destino da meia maçã foi, inevitavelmente, o estômago da mãe. E daí em diante, virou rotina o suco pela manhã (ainda pouco apreciado por Maria) e a frutinha à tarde, momento mais de brincadeira que de alimentação, convenhamos. Na primeira semana de adaptação, quem conquistou o paladar da menina foi o mamão, até perder para a papinha salgada, introduzida na dieta na segunda semana. Na hora do almoço, uma mistura de cenoura, batata e chuchu, cozidas junto com carne e um pouco de azeite e transformados uma massa homogênea, foi devorada por ela (isso quer dizer umas duas ou três colheradas). Não sei se é o cheirinho de legumes que faço questão de fazê-la sentir ou se realmente ela tem preferência por coisas salgadas, só sei que é o que ela tem comido melhor. Estamos ainda na segunda semana, mas creio que daqui a pouco ela já estará comendo bem mais, feliz da vida e fazendo a maior bagunça como sempre. Do lado de cá, a mãe ainda está aprendendo a lidar com os horários e a dinâmica do dia, se virando e tentando descobrir se existe vida após as papinhas. Tudo fica de pernas pro ar para conseguir ajeitar essas delícias para minha menininha. Ela me retribui, com a carinha lambuzada e uma felicidade sem fim por estar crescendo e fazendo ainda mais parte do nosso mundo. Quer mais vida que isso?

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