Casos e cantigas para Maria dormir

Maria é muito tranquila para dormir. Desde pequena, dispensa o balanço dos braços e dorme bem e feliz no seu bebê-conforto ou no berço (o primeiro, para os cochilos diurnos, e o segundo, para o sono da noite). Fica um tempinho resmungando, cantarolando, choramingando, como se não quisesse deixar o sono chegar para não perder um só minuto do seu precioso tempo de aprendizagens e descobertas. Choraminga, resmunga, bate os bracinhos, até que perde para o sono, vira o rostinho para o lado e apaga. Simples assim. Só que, de uns tempos pra cá, a mocinha tem preferido o carrinho ao bebê-conforto e exigido um pouco mais dos que se aventuram nesta tarefa de colocá-la para dormir. Não dorme sem antes ser empurrada no carrinho (e quanto mais ritmado e intenso for, melhor), além de ouvir todo o repertório de musiquinhas, que começam com o “Sapo Cururu”… Acho que ela já sabe que quando cantamos as músicas de sapo, tem que dormir. Ou então ela se cansa de tanta musiquinha enjoada e não resta outra opção senão fechar os olhos. Só sei que funciona, e como! Com os pés no carrinho, esticando e encolhendo as pernas, vou garantindo o embalar da minha menina (e, por que não, fazendo meu pilates improvisado). As músicas já vêm à mente numa sequência, quase que automaticamente: “Sapo cururu…”, “o sapo na beira da lagoa”…, “borboletinha…”, e por aí vai. Quando acaba, recomeço. Se não funcionou em duas rodadas, o que é muito raro, apelo para o improviso. E aí me retornam à mente as músicas mais estapafúrdias, que não sei de onde surgem. Maria já ouviu de tudo, mas os jingles são recorrentes e infalíveis. Tem de tudo: “Tá na hora de dormir, não espere a mamãe mandar, um bom sono pra você e um alegre despertar”, dos Cobertores Parahyba, “Que surpresa, mocotó Imbasa, a geleia que eu gosto mais de comer…”, das geleias de mocotó Imabasa, “Dorme, dorme filhinha, com Auricedina”… e por aí vai. O pior é que reparei que são só jingles antigos, de produtos que a gente nem encontra mais. Imaginem a confusão na cabeça da menina, quando se lembrar desses jingles cantados pela mãe e descobrir que são dos anos 80, 90, quando ela nem sonhava em vir ao mundo. “Mas eu me lembro dessa propaganda!!!”, ela dirá. Ou pior, se com isso eu acabar aguçando os interesses publicitários da menina e ela seguir a profissão do pai. Ou, pior ainda, se ela se tornar uma menina consumista! Ai, ai… Minha esperança é que, sem que eu tenha percebido, quando eu começo a cantarolar esse repertório publicitário demodê, Maria já esteja há muito tempo nos braços de Morfeu. 

 

 

Descobrindo os sabores (ou: existe vida após as papinhas?)

No dia em que completou meio ano, Maria ganhou de presente a possibilidade de experimentar um mundo de sabores. Deixaria de ser exclusivamente mamífera e poderia começar então seu passeio pelos pomares e hortas disfarçados de papinhas. Na primeira semana, suco pela manhã e fruta à tarde. Começamos com uma maçã raspadinha. Antes da primeira colherada, vem a mãe com seus preparativos (também a mãe, e principalmente ela, perdida com tanta novidade!): senta a mocinha no carrinho, coloca o babador, parte a maçã ao meio (como se a menininha fosse comer tudo), raspa a maçã e dá a primeira colherada para ela. A reação? Uma caretinha, seguida por uma curiosidade pela colher. Quis segurá-la, colocar na boca junto com os dedos, mas a maçã mesmo ia para dentro e para fora, mais para fora que para dentro. Fez carinha boa, apesar de todo desajeito da mãe. “Então é isso que vocês adultos comem?”, o pai traduziu em palavras o pensamento da filha, depois da fotografia para registrar esse momento histórico (e que ilustra este post). O destino da meia maçã foi, inevitavelmente, o estômago da mãe. E daí em diante, virou rotina o suco pela manhã (ainda pouco apreciado por Maria) e a frutinha à tarde, momento mais de brincadeira que de alimentação, convenhamos. Na primeira semana de adaptação, quem conquistou o paladar da menina foi o mamão, até perder para a papinha salgada, introduzida na dieta na segunda semana. Na hora do almoço, uma mistura de cenoura, batata e chuchu, cozidas junto com carne e um pouco de azeite e transformados uma massa homogênea, foi devorada por ela (isso quer dizer umas duas ou três colheradas). Não sei se é o cheirinho de legumes que faço questão de fazê-la sentir ou se realmente ela tem preferência por coisas salgadas, só sei que é o que ela tem comido melhor. Estamos ainda na segunda semana, mas creio que daqui a pouco ela já estará comendo bem mais, feliz da vida e fazendo a maior bagunça como sempre. Do lado de cá, a mãe ainda está aprendendo a lidar com os horários e a dinâmica do dia, se virando e tentando descobrir se existe vida após as papinhas. Tudo fica de pernas pro ar para conseguir ajeitar essas delícias para minha menininha. Ela me retribui, com a carinha lambuzada e uma felicidade sem fim por estar crescendo e fazendo ainda mais parte do nosso mundo. Quer mais vida que isso?

Quando um filho cria asas e alça voos solos

Não, não estou falando da Maria. Com seus seis meses e poucos dias, essa fase ainda está longe de chegar (pelo menos assim penso). Está certo que sinto suas asinhas crescendo um pouco mais a cada vez que ela se torna mais independente, por exemplo, quando recusa o peitinho de mãe e se vira bem com a mamadeira, ou quando nem liga quando eu saio para trabalhar. Nessas horas, é um misto de alegria de vê-la crescendo, mas dá também uma pontinha de vontade de tê-la por mais tempo debaixo das minhas asas. Então, desta vez, peço licença para escrever sobre meu outro filho, um irmão-filho que neste domingo bateu suas asas rumo a Toronto. Luiz Henrique nasceu quando eu tinha doze anos. Foi ele meu boneco preferido nesta época, meu cobaia no treinamento para ser mãe. Já caí da rede de balanço com ele, levamos muitos tombos rua afora, afoguei-o na piscina do clube, deixei o passarinho trombar na cabeça dele, entre muitas outras “aventuras” que poderiam tê-lo feito me odiar para todo o sempre. Ao contrário, a cada dia nos amamos mais. Talvez porque a cada queda, tropeço ou deslize com ele, eu sempre dava um jeito de parecer que era divertido (coisa que tento aplicar com Maria e que funciona bem). Esse treinamento com meu irmão caçula durou até quando eu saí do interior e vim para Belo Horizonte, cursar Jornalismo. Acabei não voltando mais. Nessa época, Luiz tinha sete anos e nós dois sentimos a separação. Nossa relação mãe e filho passou a se dar apenas nos finais de semana. Depois desse período, desde 2011, quando começou a graduação em Engenharia Civil, ele veio de Azurita para Belo Horizonte e passou a morar comigo e meu marido. Senti como se meu filho tivesse voltado para casa já crescido, e que eu estava retomando a maternidade depois de alguns anos. Meu marido também o “adotou” como filho mais velho, nosso “herdeiro”, como brincamos, depois que ele foi confundido como nosso filho pelo instalador de armários. Éramos três, veio Maria, ficamos quatro. Impossível estar do lado dele sem ouvir uma piada inteligente e dar boas risadas. Bom também é desfrutar das comidas deliciosas que ele faz. Melhor ainda é poder contar com sua companhia, presença amável e sempre prestativa, especialmente nos cuidados com Maria, de quem é padrinho. Desde que foi selecionado para o Ciência sem Fronteiras, programa do governo federal para fomento à graduação sanduíche, percebi o quanto meu filhinho cresceu. Eu, que até então o via como um menininho, e até sonhava muitas vezes com ele bebê ainda, me deparei com um homem feito, responsável, decidido e com um futuro brilhante pela frente. Domingo ele bateu suas asas e voou para Toronto. Ficamos aqui, com o ninho vazio, mas com uma grande alegria de ver nosso primeiro filho, de coração, ganhando o mundo.

A pequena devoradora de livros

Se filha de peixe peixinha é, Maria, filha de dois professores comunicólogos loucos por livros, já mostra desde os primeiros meses o gosto por eles. Quando tinha por volta dos três meses, ganhou dos papais uma cadeira musical cheia de penduricalhos, dentre eles um livrinho de pano com figuras do fundo do mar, que faz barulho ao ser apertado. Desde então, adotou-o como brinquedo preferido. Só que para seus poucos meses de vida, entrar no mundo mágico que a imaginação constrói a cada página lida é algo ainda pouco cogitado, convenhamos. O que ela gosta, e muito, é de ler com a boca. Não no sentido de ler em voz alta, como provavelmente ela fará daqui a alguns anos, quando estiver decifrando esse código linguístico que inventamos, mas no sentido literal de devorar cada página do seu livrinho de pano. É um tal de morde pra cá, amassa pra lá, folheia aqui, aperta ali…  Tem horas que fica até bravinha por não conseguir colocá-lo todo na boca, tamanha a ansiedade da pequena devoradora de livros. O fato é que outro dia constatamos que, para ela, quanto maior o livro e quanto mais páginas ele tiver, melhor!  Depois de demonstrar encantamento pela estante multicor da sala, diante da qual fica fascinada, viu o papai pegar um livro imenso e não pensou duas vezes: largou seu livrinho de pano com algumas poucas letras e avançou no livrão de papel e letras miúdas que o papai pegou da estante. Não fosse o tamanho do livro um empecilho para essa façanha, as mãos ágeis e a boca voraz da menininha teriam transformado o livrão do papai no melhor brinquedinho babado da filhinha, que, por ser filha de traças, tracinha parece ser.